RESENHA DO LIVRO SAGARANA: A Hora e a Vez de Augusto Matraga
"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é um conto escrito por Guimarães Rosa e parte do livro "Sagarana" publicado em 1946. Esta novela, que conta com diversas edições, conta a história de Augusto Matraga, um homem violento e sanguinário. Ele passa por uma conversão religiosa após ser traído e quase assassinado por aqueles ao seu redor. Ele muda e leva uma vida de penitência e devoção, tornando-se uma pessoa completamente diferente do que era no início da história. O conto explora temas como redenção, transformação, a dualidade do ser humano, e a capacidade de superar um passado violento. A narrativa é conhecida pela riqueza da linguagem de Guimarães Rosa, que utiliza o vocabulário de forma bastante exploratória e rica, algo que é característico de sua obra.
Ler as obras de Guimarães Rosa nos faz passear por uma imensidão de costumes, linguagem e referências da época e notar a importância da história que se passa no sertão brasileiro, em uma época em que a vida no campo e os códigos de honra eram muito valorizados. A linguagem de Guimarães Rosa é característica por seu uso inovador e criativo do idioma, incorporando elementos do sertão e neologismos que enriquecem a narrativa, criando assim, um mundo complexo e multifacetado que reflete a riqueza da diversidade humana e dos contextos sociais.
A história em si não retrata de forma explícita temas como diversidade, inclusão ou qualquer um estudado durante as aulas, porém encontramos maneiras de dialogar a narrativa com esses conceitos de modo a possibilitar maiores compreensões dos contos que muitas vezes dizem da realidade. Bianchetti e Freire (1998), oferecem a construção de uma rica tapeçaria que entrelaça o conto e os diversos temas, por meio da reflexão. A transformação do personagem principal, de um homem violento para um buscador de redenção, ilustra a capacidade universal de mudança e evolução. Bianchetti poderia ressaltar que a inclusão desempenha um papel crucial nesse processo. O casal que acolhe Matraga representa um ambiente de aceitação e apoio, onde a diversidade de experiências é valorizada e onde a busca por uma vida mais significativa é encorajada.
Por sua vez, José D’Assunção Barros (2018) abre espaço para uma análise centrada na desigualdade e na busca por igualdade espiritual. As desigualdades sociais e as estruturas de poder são representadas na narrativa, de acordo com a estrutura de cada relação, trazendo à tona a premissa de que: quem tem mais poder, mais pode tudo. Ou seja, a sociedade da época retrata que hierarquias e desigualdades eram uma realidade palpável.
Barros também poderia explorar como a comunidade representada na história funciona como um espaço de integração e igualdade relativa, onde as diferenças são aceitas e valorizadas, assim como Bianchetti e Freire. A busca de Matraga por redenção e espiritualidade pode ser interpretada como uma tentativa de encontrar igualdade perante a divindade ou perante a própria consciência. Há também uma interseccionalidade entre as diferentes formas de diferença (seja em termos de classe social, moralidade ou espiritualidade) que se sobrepõem e interagem para moldar a jornada de Matraga em direção à redenção.
Em conjunto, partindo das perspectivas de Bianchetti e Barros identifica-se uma uma análise abrangente e enriquecedora do conto de Guimarães Rosa. Ao entrelaçar temas de diversidade, inclusão, desigualdade e linguagem, eles revelam as complexidades e as profundidades da experiência humana retratada na obra, proporcionando insights valiosos sobre a condição humana e as aspirações universais por redenção e transformação.

Referências
BARROS, J. D.. Igualdade e diferença: uma discussão conceitual mediada pelo contraponto das desigualdades. Revista Brasileira de Educação, v. 23, p. e230093, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1413-24782018230093. Acesso em: 03 out. 2023
BIANCHETTI, L. Aspectos históricos da apreensão e da educação dos considerados deficientes. In: BIANCHETTI, L.; FREIRE, I. M. (Orgs.). Um olhar sobre a diferença: interação, trabalho e cidadania. São Paulo: Papirus, 1998. p. 21-51



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